Divulgação do metal português

Cape Torment

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Cape Torment, colectivo do Porto formado em dezembro de 2011 com um nobre objectivo: “recuperar a brutalidade que os fez homens nos saudosos anos 80: Death Metal!”.

Com uma forte participação ao vivo, tem previsto para este último trimestre de 2015 o lançamento do EP homónimo de estreia e que aguardamos com ansiedade!

A banda é constituída por Bombeiro (voz), Paulo Voivod (guitarra), Ary Elias (guitarra), Luís Botelho (baixo) e Patrick (bateria). Foi com Ary Elias que tivemos esta entrevista e que nos mostra a vivência dos Cape Torment, assim como o envolvimento dele no meia musical extremo.

 

– Olá Ary! É um prazer e sê bem-vindo a este número da Ode Lusitana e queria agradecer a tua disponibilidade para 

10153874_757605787597179_8120691294108102787_n-3responderes a algumas perguntas. Como és o elemento mais recente dos Cape Torment, entrando para a banda há poucos meses, diz-nos como é que conhecias os restantes membros e como surgiu esta oportunidade? Acompanhavas as apresentações da banda? Como decorreram os primeiros ensaios e como correu com o Patrick, o novo baterista?

Eu é que agradeço a oportunidade e o interesse demonstrados pela Ode Lusitana.

Todos os elementos dos Cape Torment são da chamada velha guarda do metal portuense e já os conhecia há vários anos, desde o tempo em que tocavam em bandas comos os Lacrima ou Invert, ainda nos anos 90.

Com a criação do grupo facebook “Amigos da Bimotor e Tubitek anos 80/90” (que reúne os veteranos da cena que, nas referidas décadas, se reuniam nas referidas lojas de discos) pelo Paulo (guitarrista de Cape Torment), do qual todos nós fazemos parte, e consequentes convívios, jantares e concertos, os laços e amizade estreitaram-se.

Inclusive, os Cape Torment e Assassinner chegaram a partilharam palcos e quando estes últimos tocaram no Hard Club, o Paulo foi o DJ escolhido para animar as hostes.

Ou seja, não eramos desconhecidos uns dos outros. Muito pelo contrário.

Talvez por essa razão, o convite para integrar os Cape Torment surgiu de forma natural.

Os Assassinner tinham suspendido as actuações ao vivo, fruto da ausência do Alexandre (vocalista/baixista) que emigrou por razões profissionais, os Cape Torment estavam à procura de um guitarrista e o Paulo sugeriu o meu nome ao resto da banda.

A faixa etária é sensivelmente a mesma, o background é similar e o gosto pelas sonoridades mais old school com que crescemos também.

Após um primeiro ensaio confirmou-se a química entre todos, juntamos o útil ao agradável e aqui estamos.

O Patrick foi recrutado antes de mim, penso que no início de 2015. Já o conhecia dos Dethmor e Burn the Strain, com que também já tinha partilhado palcos. Quando entrei já estava perfeitamente integrado.

Nesta fase da vida, em que a família e profissão muitas vezes limitam a nossa disponibilidade, uma banda não pode ser apenas uma banda. Para além da parte musical propriamente dita, tem que haver algo mais que una e motive os vários membros. E penso que nos Cape Torment é esse o motor primordial.

– Cape Torment tem a sua fundação em 2011, mas passados estes anos é que temos a informação de que está previsto o lançamento de um EP homónimo constituído por cinco temas e uma intro. Participaste nas gravações deste trabalho? O que nós podes dizer do lançamento deste trabalho?

Há algum tempo atrás os Cape Torment chegaram a gravar alguns temas com vista à edição de um EP, mas por várias razões, o mesmo não chegou a ser concluído e editado.

Relativamente ao homónimo, quando entrei para a banda, as gravações estavam praticamente concluídas, pelo que o meu input nas mesmas foi nulo. Participei activamente noutras questões relacionadas com a sua edição, nomeadamente no que concerne ao artwork.

Com excepção da bateria, que foi registada nos Dethmor Studios pelo próprio Patrick, tudo o resto foi gravado nos Sonic Studios, com o Carlos Barbosa (Final Mercy, Ex- Cycles), que também irá misturar e masterizar o EP.

A edição está prevista para este último trimestre de 2015 e terá duplo formato, digital e CD, sendo que este último terá uma tiragem limitada.

O imaginário da banda prende-se com os descobrimentos portugueses e vai estar presente na parte musical, lírica e artwork do EP.

Os cinco temas que fazem parte do alinhamento do EP estão, na minha opinião, ao melhor nível do que se faz cá e também lá fora, dentro das sonoridades Death Metal mais old school.

As composições são coesas, com pés e cabeça e de fácil audição. Aliás, entranham-se muito rapidamente na nossa mente e dificilmente saem de lá tão cedo. Foi isso que aconteceu comigo lol

12144670_889504277797695_2531121898135627586_n– Temos vindo a assistir nas últimas semanas a um aumento dos vossos concertos ao vivo e que se estende até ao final do ano. Achas que os concertos são a melhor maneira de chegar às pessoas? Qual é a tua opinião acerca do crescente número de locais para concertos/festivais? Através disto é possível aquele circuito de bandas / público / promotores que há tanto andamos a apregoar?

A partir do momento que a formação é estável e o set está assimilado, o passo seguinte são os concertos.

Existem, de facto, muitas formas de se chegar às pessoas, seja através das gravações, streaming, vídeos, facebook, etc., mas os concertos serão, na minha óptica, o meio egoísta por excelência e que mais satisfaz os músicos envolvidos.

Acresce que, a energia que flui invariavelmente em todas as actuações é passível de contagiar todos os presentes e, como tal, causar um impacto imediato e muito mais forte nas pessoas que a simples audição das gravações.

E depois, como é costume dizer, é no palco que as bandas mostram o que valem. Em estúdio, os meios tecnológicos tudo possibilitam. No palco é a raça que conta.

O facto de se verificar um crescente número de locais para concertos, indiciam a existência de um circuito alargado para as bandas poderem mostrar os seus trabalhos é excelente.

Já é possível fazer verdadeiras tournées de âmbito nacional, não só pelos grandes centros urbanos, mas também por localidades mais pequenas, o que possibilita uma promoção mais alargada do nosso trabalho e ao mesmo tempo, manter a motivação.

Para mim é frustrante tocar sempre nas mesmas cidades, nas mesmas salas, para as mesmas pessoas.

– Ainda não tive a oportunidade de vos ver ao vivo, mas através de alguns vídeos demonstram a vossa dedicação ao 10270541_616514765096649_9192592401302855994_n-2death metal old school. Ora bem, são todos apaixonados deste género, ou é o vosso escape ao dia-a-dia, sendo este um dos géneros que até ouvem de vez em quando? O que achas do death metal produzido em Tampa Bay na Florida e que era gravado nos Morrisound Studios?

Todos nós somos uns privilegiados pois vivemos na época áurea da música dita extrema. Acompanhamos o surgimento do Death Metal, o tal oriundo de Tampa, Florida, gravado nos Morrisound Studios e, naturalmente, ficamos deslumbrados com a agressividade deste sub-género do metal.

Continuo a ouvir com regularidade os estandartes old school do Death Metal, mas não me limito aos mesmos.

Aliás, provavelmente ouço diariamente muito mais thrash, hard core e punk do que death propriamente dito.

Mas, neste campo, acredito ser a excepção da banda. Todos os outros membros são deathsters de sete costados lol

– Quais são os teus 3 álbuns favoritos de death metal?  

No meu top está o “Leprosy” dos Death, que considero a obra-prima do género e da banda em questão. Isto apesar do “Individual Thoughts Pattern” e o “Symbolic” figurarem igualmente nesse top.

Não sendo propriamente um estandarte deste estilo, os Napalm Death são uma das minhas bandas de eleição. E como, em certas fases da sua discografia, revelaram despudoradamente a sua costela death metal, não posso deixar de referir o álbum “Harmony Corruption” como um dos meus preferidos.

Por último, elejo o “Heartwork” dos Carcass, que mistura de forma sublime velocidade, peso e groove.

Mas podia nomear muitos outros. Benediction, Bolt Thrower, Gorefest, Cannibal Corpse, Obituary ou Entombed, todos têm álbuns dignos de figurar nesta lista.

– És um veterano da cena underground portuense e histórias não faltam. Como surgiu a tua paixão pelo metal e o que ouvias em miúdo? Como era o teu processo de descoberta de bandas?

É uma história caricata, que revela a falta de informação e divulgação que havia nessa altura.

Tudo começou por volta de 1986, quando assisti na RTP2 a um concerto de uma banda conectada com o movimento gótico. Algumas das músicas tinham guitarradas a abrir e os membros tinham cabelo comprido. Gravei em VHS e andava sempre a ver e ouvir aquilo. O meu irmão mais velho um dia disse-me que eram heavy metal e que tinha uns amigos na escola que curtiam esse som e que se quisesse pedia para me gravarem umas K7s.

Bendito erro! lol

A primeira K7 que me gravaram consistia numa compilação de bandas e temas que são hoje clássicos. “We are the Road Crue” dos Motörhead, “Motorbreath” dos Metallica, “Show no Mercy” dos Slayer, “Pleasure to Kill” dos Kreator, “Breaking the Law” dos Judas Priest, “The Rime of the Ancient Mariner” dos Iron Maiden, eram algumas das faixas que fizeram parte da minha estreia auditiva e que continuam a integrar a minha playlist.

Mas acima de tudo foram o ponto de partida para descoberta do universo do Heavy Metal.

A partir desse momento, não só continuei a cravar os tais amigos do meu irmão que, pouco tempo depois, fundaram uma das primeiras bandas de thrash da zona do Porto, os Hardness, como também comecei a frequentar a Bimotor e a Tubitek, que eram as únicas lojas de discos do Porto onde se encontravam vinis deste estilo, sendo também um local de convívio dos metaleiros.

Numa altura em que não havia internet e as publicações escritas praticamente ignoravam este estilo, o boca-a-boca era o meio de divulgação e descoberta por excelência de novas bandas.

O facto de toda a gente frequentar os mesmos locais, ir aos mesmos concertos facilitava a amizade e consequente troca de K7s e discos.

A propósito a banda de rock gótico eram os The Mission.

11707345_849915008423289_4724442659173433883_n– Fizeste parte de várias bandas, como Silêncio Extremo, Morbid Minds, Str@in (ex-Crackdown). Como nasceu a tua paixão pelas guitarras e como te englobavas nas bandas já que os estilos eram tão diferentes? Que achas da cena underground actual no Porto e arredores?

Sempre gostei de música e de vários instrumentos em geral. O facto de ter optado pela guitarra teve única e exclusivamente a ver com o acaso.

Na secundária, nos finais dos anos 80/início dos anos 90, já tinha no meu círculo de amizades algumas pessoas que, como eu, eram metaleiros. E a certa altura alguns deles começaram em falar em formar uma banda. Faltava um segundo guitarrista e eu fui escolhido para ocupar esse lugar. Foi assim que surgiram os Silêncio Extremo.

O som era cru e imaturo, pois estávamos todos a aprender a tocar. Apesar de espelhar um pouco todas as nossas influências, curiosamente aproximava-se mais do death metal que era a novidade da altura.

Os Morbid Minds, Crackdown e Str@in são, no fundo, a mesma banda. Os nomes foram-se alterando com as mudanças de line-up, evolução técnica e/ou sonoridades que ouvíamos e nos influenciavam. Mas o núcleo duro e criativo nestas três bandas sempre foi o mesmo: eu, o Alexandre (que fundou comigo os Assassinner) e o outro guitarrista José Farinha.

Actualmente, a cena underground é muito diferente. Há muitas mais bandas. O acesso a instrumentos de qualidade está generalizado e a aprendizagem dos vários instrumentos e técnicas é facilitado pela internet. O que tem influência na qualidade do produto que apresentam.

O facto de haver mais locais/festivais, com boas condições, também é óptimo para a divulgação do seu trabalho.

No entanto, penso que, na sua generalidade, a afluência do público está aquém do que vivenciei nos anos 80 e 90. Talvez pelo excesso de oferta ou quiçá pela falta de espírito ou de comunidade em sentido restrito.

Não querendo cair no saudosismo típico do português, do “antigamente é que era bom”, a verdade é que há duas décadas atrás cada concerto era um evento a não perder. Toda a gente do Porto e arredores (Maia, Matosinhos, Gaia, Gondomar, etc.) se esfalfava para comparecer. Apanhava um ou mais autocarros/camionetas, comboio ou simplesmente fazia kms a pé para poder ir a determinada actuação.

Isto porque ir a concertos não só era o meio primordial para conhecermos as bandas nacionais, como também se consubstanciava numa oportunidade para revermos amigos e convivermos um pouco com os nossos iguais. Isto numa altura em que não tínhamos facebook, youtube, messenger, nem sequer computadores ou internet lol

Actualmente o comodismo leva muitas vezes a melhor. O que é pena. Contra mim falo. Após uma jornada de trabalho, muitas vezes é o cansaço ou vontade de estar com família que vence.

– Também tens outra banda, chamada Assassinner praticantes de thrash metal / groove. Que novidades nos podes dizer acerca desta tua banda? Está prevista a edição de algum material nos próximos tempos? Como é a maneira de trabalhares com o Alexandre (voz e baixo), em que já o conheces pelo menos dos tempos de Morbid Minds, há mais de 20 anos?

Os Assassinner são a banda onde dou maior vazão àquilo que sou, musicalmente falando. Não só por ter sido um dos seus fundadores/mentores, mas também porque, desde sempre, optamos por não nos restringir a um sub-género de música extrema. Como gostamos de rock, thrash, death, grind, hard core, punk, etc. etc., é possível encontrar um pouco disto tudo no nosso som. Na prática, Assassinner é uma súmula das minhas influências e gostos e das do Alexandre.

Sucede que, a crise económica que assolou o país obrigou o Alexandre, companheiro de longos anos nestas lides musicais, a emigrar para abraçar melhores oportunidades profissionais. Como tal, suspendemos as actividades ao vivo dos Assassinner, mas a banda não terminou. Continuamos a compor novas ideias musicais, com todas as dificuldades inerentes à distância que nos separa.

Estando previsto o Alexandre vir a Portugal no final deste ano, queremos aproveitar a sua presença para registarmos dois temas novos, inéditos, para mostrar que estamos vivos e melhores que nunca. Será a primeira gravação da banda enquanto quarteto, com dois guitarristas. Até agora o nosso percurso tinha sido sempre no formato power trio. A edição será, em princípio, exclusivamente digital e gratuita.

Apesar de nos conhecermos há mais de 20 anos, nem sempre é fácil conciliar ideias, vontades ou egos. Por vezes, temos opiniões divergentes sobre o caminho a seguir, seja musical ou outro. Mas com um pouco de paciência tudo se resolve. Ao fim de tanto tempo de amizade, não será certamente a música, que esteve na sua origem, a acabar com a mesma.

– É tudo Ary e muito obrigado por teres respondido. As últimas linhas são tuas em que podes dizer o que bem entenderes!

Quero agradecer, mais uma vez, a amabilidade e interesse da Ode Lusitana em entrevistar-me e dar a conhecer um pouco o meu percurso e trabalho. Da minha parte, manifesto a minha inteira disponibilidade em colaborar naquilo que precisarem.

Contém com o exemplar do EP de estreia dos Cape Torment ainda em 2015 e, mais para o início do próximo ano, aguardem o novo registo dos Assassinner.

Grande abraço e até breve!

 

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